Professor da Uniso que participou do resgate do cavalo Caramelo no RS reencontra o animal após dois anos
No dia último dia nove de maio, o regaste do cavalo Caramelo, noticiado mundialmente, completou dois anos. Para celebrar a vida do animal, o veterinário e professor da Universidade de Sorocaba (Uniso) Leonardo Maggio de Castro, juntamente com alguns integrantes da equipe de resgate, esteve na cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul (RS), visitando o Caramelo.
“Depois do resgate, tanto eu quanto a Thalita, o João, e o Matheus não havíamos voltado para o RS, somente o Fábio. Ele voltou em algumas vezes pontuais e chegou a ver o Caramelo, mas ainda na fase de recuperação pós resgate”, detalha Castro.
As pessoas que o professor cita, são a médica veterinária — e pós-graduada no curso de Aprimoramento Profissional em Medicina Veterinária oferecido pela Uniso — Talita Nunes e os demais integrantes da equipe de Sorocaba que participaram do resgate: o bombeiro civil João Marques; o médico veterinário Fábio Thut; e o estudante de medicina veterinária, Matheus Oliveira.

“A gente não tinha visto ainda, nem o Caramelo e nem as ONGs que nós trabalhamos juntos, e os locais que atuamos. Então partiu da nossa equipe esse contato com o pessoal da Ulbra para podermos voltar ao local, ver como tudo estava e, de ‘quebra’, poder ver o Caramelo”, explica Castro, que integra o grupo de Resgate Técnico de Animais (RTA-Brasil). A Ulbra é a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), sediada na cidade de Canoas, no estado do Rio Grande do Sul.
“Quando nós manifestamos o interesse, o pessoal da Ulbra, que administra o Instagram Caramelo Oficial, ficou muito contente, até porque, como eles nos disseram, muitas pessoas ainda não sabiam, de fato, quem coordenou os resgates, quem tomou a iniciativa. Além de nós, por exemplo, participaram Bruno Neves, médico veterinário de Canoas, e o Corpo de Bombeiros da cidade”, relata.
“O Caramelo foi oficialmente adotado pela Ulbra, e será construído na universidade um santuário para ele. O espaço da universidade é controlado e excelente para um cavalo que merece descansar, ficar tranquilo”, explica Castro. De acordo com o professor, a tutela da Ulbra sobre o animal não é somente legal, mas também de manejo, ou seja, a instituição é responsável pela alimentação, higienização e cuidados médicos.
“O senhor Roque é o guardião dele, o tratador que cuida pessoalmente do Caramelo, que dá comida, escova, e faz a higiene. Fora a equipe do Hospital Veterinário da Ulbra, coordenada pelo doutor Henrique, que faz os cuidados médicos, caso precise, pois hoje ele não está necessitando. Ele está recebendo carinho”, comenta.

O misto de sensações causadas pelo retorno
“Voltar lá foi um misto de sensações, não só pelo Caramelo, mas por poder ver tudo como ficou. Nós fomos de carro, na época, e retornamos agora de carro também, nós quisemos reviver todo o caminho. Sentimos novamente tudo o que a gente viveu naquele dia, as incertezas, o cansaço, o estresse, e a tristeza de ver tudo como estava”, confessa.
Castro comenta que durante a viagem, ele e os colegas de resgate relembraram diversas situações do período em que estiveram no RS, durante as enchentes de 2024. “Durante a viagem falávamos: ‘aqui onde nós estamos passando agora, se estivéssemos passando aqui naquela época, o carro estaria totalmente submerso com mais de um metro de água para cima de nós’”, comenta.
Segundo o professor, o percurso rendeu um misto entre a “alegria pelo povo que está se reconstruindo”, e a “tristeza de lembrar quantas pessoas sucumbiram, como foi triste aquele período”. Para ele, apesar das lembranças tristes, essas reflexões foram importantes para a equipe valorizar ainda mais o trabalho, as pessoas que estavam lá, e perceber o tanto de destruição que viram. “Agora, andando pelas ruas de carro, a gente pode ter uma proporção maior, pois na época a gente só andava de barco”, complementa.
O reencontro com o Caramelo

“Poder reencontrar o Caramelo foi uma alegria imensa”, detalha Castro. Mas apesar de toda a alegria, o professor faz questão de sinalizar que o animal não foi o único a ser resgatado durantes o evento trágico. “Nós ficamos felizes por ele, um ser vivo que teve sua vida salva, mas precisamos lembrar que ele é um dentre vários outros que foram resgatados, humanos ou animais de diversas espécies. E que também existiram muitos que sucumbiram. Então, eu deixo muito claro que nós celebramos o resgate, a vida do Caramelo, mas não nos esquecendo sobretudo daqueles que perderam tudo, inclusive as suas vidas”, pondera.
“Foi muito emocionante reencontrá-lo e vê-lo bem, porque ele é um símbolo de esperança. A história é marcada por símbolos, e o Caramelo é um deles. Durante as grandes tragédias surgem os protagonistas da história, e ele é um desses, um símbolo que serve como inspiração, para que a coisa possa fluir dentre as pessoas, que a gente possa ter esperança de dias melhores”, pontua.
Sobre a situação em que o cavalo foi encontrado na época, Castro comenta que ele estava “desnutrido, severamente desidratado, hipotérmico, muito magro, um olhar de medo, angústia, incerteza e sofrimento”. Ele comenta que hoje o animal está bem, ganhou peso, o pelo está brilhante e reencontrou sua altivez.
Ainda em relação aos sentimentos que envolveram o reencontro, Castro faz questão de frisar que o momento reafirmou um pensamento que ele carrega consigo: “não há dinheiro no mundo que pague a sensação de você poder ajudar alguém, mesmo que esse alguém não possa dizer muito obrigado. A gente trabalha para isso, justifica todo o nosso esforço, dedicação, e trabalho em prol do resgate técnico de grandes animais”, confidencia.

Conscientização sobre a temática após o caso do Caramelo
Castro comenta que o resgate do cavalo Caramelo, serviu também para que o público leigo e profissional percebesse ainda mais a necessidade de se estar preparado para lidar com esse tipo de situação envolvendo animais de grande porte, como equinos e bovinos, o que segundo ele, representam um grande desafio pois além do próprio comportamento do animal, e dos desafios clínicos, existe também questões como o tamanho e o peso desses tipos de animais. “Não é só chegar lá e vamos fazer de qualquer jeito e vamos tirar, precisa de técnica. Então o resgate do caramelo trouxe isso para o público leigo e profissional, acendeu, aguçou a curiosidade e o entendimento de que precisamos nos preparar”, pontua.
Para Castro o público, antes leigo, agora sabe da existência desse tipo de serviço de resgate, e da necessidade de se acionar profissionais especializado nesse tipo de atendimento. Citando o caso de Brumadinho — cidade mineira que sofreu graves danos após o rompimento de uma barragem em 2019 — Castro comente que o caso do Caramelo deixa um legado, sendo um divisor se águas no ramo do resgate de animais.
“Na era pós-brumadinho, nós tivemos uma profissionalização ainda mais robusta no resgate técnico, na medicina veterinária e nas situações de desastres. O caso do Caramelo é um grande divisor, não só para grandes animais, mas para os pequenos, e silvestres também. De lá para cá, as pessoas começaram a se preparar, se preocupar muito mais. Hoje em uma situação dessas elas sabem o que fazer”, reforça.
Projetos futuros
“De lá para cá, nós tivemos inúmeras portas que se abriram para os projetos que já aconteciam, ganharem ainda mais robustez e força, seja na iniciativa privada, pública ou no voluntariado”, detalha Castro. Dentre essas novidades que ocorreram, o professor cita a parceria oficial entre a Uniso e a Defesa Civil, em conjunto com o 15º Grupamento de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo, e também o convênio que foi firmado entre a Uniso, e a Universidade Lusófona em Portugal, permitindo o intercâmbio entre essas instituições. “Não coloco isso somente em decorrência do Caramelo, porque ele é uma parte disso, mas com certeza ajudou a alavancar, pois muita gente nos procura para saber sobre nossos profissionais e o trabalho sério que é desenvolvido na Uniso”, complementa.
“A Uniso de maneira brilhante, tem aproveitado esse engajamento, e sendo pioneira, apoiando o trabalho, e investindo nesse projeto de difusão do tema, no primeiro, segundo e terceiro setor da sociedade, bem como também internacionalizando o ensino, tal qual é um dos objetivos da Universidade hoje”, conclui Castro.
Texto: Rafael Filho
