21 de maio de 2026
Notícia 1

Professor da Uniso que participou do resgate do cavalo Caramelo no RS reencontra o animal após dois anos

No dia último dia nove de maio, o regaste do cavalo Caramelo, noticiado mundialmente, completou dois anos. Para celebrar a vida do animal, o veterinário e professor da Universidade de Sorocaba (Uniso) Leonardo Maggio de Castro, juntamente com alguns integrantes da equipe de resgate, esteve na cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul (RS), visitando o Caramelo.

“Depois do resgate, tanto eu quanto a Thalita, o João, e o Matheus não havíamos voltado para o RS, somente o Fábio. Ele voltou em algumas vezes pontuais e chegou a ver o Caramelo, mas ainda na fase de recuperação pós resgate”, detalha Castro.

As pessoas que o professor cita, são a médica veterinária — e pós-graduada no curso de Aprimoramento Profissional em Medicina Veterinária oferecido pela Uniso — Talita Nunes e os demais integrantes da equipe de Sorocaba que participaram do resgate: o bombeiro civil João Marques; o médico veterinário Fábio Thut; e o estudante de medicina veterinária, Matheus Oliveira.

Equipe sorocabana ao lado do cavalo Caramelo (Crédito: arquivo Ulbra)

“A gente não tinha visto ainda, nem o Caramelo e nem as ONGs que nós trabalhamos juntos, e os locais que atuamos. Então partiu da nossa equipe esse contato com o pessoal da Ulbra para podermos voltar ao local, ver como tudo estava e, de ‘quebra’, poder ver o Caramelo”, explica Castro, que integra o grupo de Resgate Técnico de Animais (RTA-Brasil). A Ulbra é a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), sediada na cidade de Canoas, no estado do Rio Grande do Sul.

“Quando nós manifestamos o interesse, o pessoal da Ulbra, que administra o Instagram Caramelo Oficial, ficou muito contente, até porque, como eles nos disseram, muitas pessoas ainda não sabiam, de fato, quem coordenou os resgates, quem tomou a iniciativa. Além de nós, por exemplo, participaram Bruno Neves, médico veterinário de Canoas, e o Corpo de Bombeiros da cidade”, relata.

“O Caramelo foi oficialmente adotado pela Ulbra, e será construído na universidade um santuário para ele. O espaço da universidade é controlado e excelente para um cavalo que merece descansar, ficar tranquilo”, explica Castro. De acordo com o professor, a tutela da Ulbra sobre o animal não é somente legal, mas também de manejo, ou seja, a instituição é responsável pela alimentação, higienização e cuidados médicos.

“O senhor Roque é o guardião dele, o tratador que cuida pessoalmente do Caramelo, que dá comida, escova, e faz a higiene. Fora a equipe do Hospital Veterinário da Ulbra, coordenada pelo doutor Henrique, que faz os cuidados médicos, caso precise, pois hoje ele não está necessitando. Ele está recebendo carinho”, comenta.

Equipe de Sorocaba composta por Talita Nunes, Matheus Oliveira, Leonardo Castro, João Marques e Fábio Thut durante os resgates em 2024 (Crédito: arquivo pessoal Leonardo Maggio de Castro)

O misto de sensações causadas pelo retorno

“Voltar lá foi um misto de sensações, não só pelo Caramelo, mas por poder ver tudo como ficou. Nós fomos de carro, na época, e retornamos agora de carro também, nós quisemos reviver todo o caminho. Sentimos novamente tudo o que a gente viveu naquele dia, as incertezas, o cansaço, o estresse, e a tristeza de ver tudo como estava”, confessa.

Castro comenta que durante a viagem, ele e os colegas de resgate relembraram diversas situações do período em que estiveram no RS, durante as enchentes de 2024. “Durante a viagem falávamos: ‘aqui onde nós estamos passando agora, se estivéssemos passando aqui naquela época, o carro estaria totalmente submerso com mais de um metro de água para cima de nós’”, comenta.

Segundo o professor, o percurso rendeu um misto entre a “alegria pelo povo que está se reconstruindo”, e a “tristeza de lembrar quantas pessoas sucumbiram, como foi triste aquele período”. Para ele, apesar das lembranças tristes, essas reflexões foram importantes para a equipe valorizar ainda mais o trabalho, as pessoas que estavam lá, e perceber o tanto de destruição que viram. “Agora, andando pelas ruas de carro, a gente pode ter uma proporção maior, pois na época a gente só andava de barco”, complementa.

O reencontro com o Caramelo

O animal se encontra sob tutela da Ulbra e sendo tratado pelo Sr. Roque (ao fundo), funcionário da universidade, conhecido como “O Guardião do Caramelo” (Crédito: arquivo Ulbra)


 “Poder reencontrar o Caramelo foi uma alegria imensa”, detalha Castro. Mas apesar de toda a alegria, o professor faz questão de sinalizar que o animal não foi o único a ser resgatado durantes o evento trágico. “Nós ficamos felizes por ele, um ser vivo que teve sua vida salva, mas precisamos lembrar que ele é um dentre vários outros que foram resgatados, humanos ou animais de diversas espécies. E que também existiram muitos que sucumbiram. Então, eu deixo muito claro que nós celebramos o resgate, a vida do Caramelo, mas não nos esquecendo sobretudo daqueles que perderam tudo, inclusive as suas vidas”, pondera.

“Foi muito emocionante reencontrá-lo e vê-lo bem, porque ele é um símbolo de esperança. A história é marcada por símbolos, e o Caramelo é um deles. Durante as grandes tragédias surgem os protagonistas da história, e ele é um desses, um símbolo que serve como inspiração, para que a coisa possa fluir dentre as pessoas, que a gente possa ter esperança de dias melhores”, pontua.

Sobre a situação em que o cavalo foi encontrado na época, Castro comenta que ele estava “desnutrido, severamente desidratado, hipotérmico, muito magro, um olhar de medo, angústia, incerteza e sofrimento”. Ele comenta que hoje o animal está bem, ganhou peso, o pelo está brilhante e reencontrou sua altivez.

Ainda em relação aos sentimentos que envolveram o reencontro, Castro faz questão de frisar que o momento reafirmou um pensamento que ele carrega consigo: “não há dinheiro no mundo que pague a sensação de você poder ajudar alguém, mesmo que esse alguém não possa dizer muito obrigado. A gente trabalha para isso, justifica todo o nosso esforço, dedicação, e trabalho em prol do resgate técnico de grandes animais”, confidencia.

Para eternizar o sucesso do resgate, Leonardo, João e Fábio fizeram uma tatuagem. A frase foi dita por um motoboy para motivá-los durante os resgates (Crédito: arquivo Ulbra)

Conscientização sobre a temática após o caso do Caramelo

Castro comenta que o resgate do cavalo Caramelo, serviu também para que o público leigo e profissional percebesse ainda mais a necessidade de se estar preparado para lidar com esse tipo de situação envolvendo animais de grande porte, como equinos e bovinos, o que segundo ele, representam um grande desafio pois além do próprio comportamento do animal, e dos desafios clínicos, existe também questões como o tamanho e o peso desses tipos de animais. “Não é só chegar lá e vamos fazer de qualquer jeito e vamos tirar, precisa de técnica. Então o resgate do caramelo trouxe isso para o público leigo e profissional, acendeu, aguçou a curiosidade e o entendimento de que precisamos nos preparar”, pontua.

Para Castro o público, antes leigo, agora sabe da existência desse tipo de serviço de resgate, e da necessidade de se acionar profissionais especializado nesse tipo de atendimento. Citando o caso de Brumadinho — cidade mineira que sofreu graves danos após o rompimento de uma barragem em 2019 — Castro comente que o caso do Caramelo deixa um legado, sendo um divisor se águas no ramo do resgate de animais.

“Na era pós-brumadinho, nós tivemos uma profissionalização ainda mais robusta no resgate técnico, na medicina veterinária e nas situações de desastres. O caso do Caramelo é um grande divisor, não só para grandes animais, mas para os pequenos, e silvestres também. De lá para cá, as pessoas começaram a se preparar, se preocupar muito mais. Hoje em uma situação dessas elas sabem o que fazer”, reforça.

Projetos futuros

“De lá para cá, nós tivemos inúmeras portas que se abriram para os projetos que já aconteciam, ganharem ainda mais robustez e força, seja na iniciativa privada, pública ou no voluntariado”, detalha Castro. Dentre essas novidades que ocorreram, o professor cita a parceria oficial entre a Uniso e a Defesa Civil, em conjunto com o 15º Grupamento de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo, e também o convênio que foi firmado entre a Uniso, e a Universidade Lusófona em Portugal, permitindo o intercâmbio entre essas instituições. “Não coloco isso somente em decorrência do Caramelo, porque ele é uma parte disso, mas com certeza ajudou a alavancar, pois muita gente nos procura para saber sobre nossos profissionais e o trabalho sério que é desenvolvido na Uniso”, complementa.

“A Uniso de maneira brilhante, tem aproveitado esse engajamento, e sendo pioneira, apoiando o trabalho, e investindo nesse projeto de difusão do tema, no primeiro, segundo e terceiro setor da sociedade, bem como também internacionalizando o ensino, tal qual é um dos objetivos da Universidade hoje”, conclui Castro.

TextoRafael Filho