Aluna de Arquitetura e Urbanismo desenvolve livro sobre patrimônio histórico de Sorocaba
Qual a importância do cuidado com o nosso patrimônio histórico e arquitetônico? Para a autora Joyce Berth no livro Se A Cidade Fosse Minha, precisamos “pensar na diversidade e na pluralidade humana que ocupam o espaço urbano, pensar na qualidade de vida, nas construções, nas relações humanas, no patrimônio material e imaterial, na limpeza, na divisão administrativa e nos acessos metropolitanos”.
A valorização da memória é um dos principais objetivos do livro Patrimônios Históricos Sorocabanos, escrito pela aluna de Arquitetura e Urbanismo, Ana Júlia de Almeida, e orientado pela professora Graziele Bathaus durante um projeto de Iniciação Científica. Segundo a docente, a memória urbana “faz parte da memória social, uma vez que a cidade é um ambiente produzido por pessoas e faz associações sobre as transformações do lugar”.

Ana Júlia conta que a pesquisa chamou sua atenção logo quando soube, pelo fato de gostar do tema e se interessar pela carreira acadêmica. “Eu não tinha ideia de como funcionaria. Achei que seria apenas a coleta de dados sobre o patrimônio da cidade. Foi uma grata surpresa quando a professora Graziele explicou a ideia do produto final”, explica a aluna. Ana Júlia pondera que quando se fala de patrimônio e história, existe a tendência de as pessoas acharem que o conteúdo será maçante, mas, segundo ela, o livro foi pensado e criado de uma forma que a leitura seja facilitada: “Acredito que o tema pode, sim, ser abordado de forma leve e divertida, para chamar cada vez mais atenção para história tão rica dessa cidade”. E essa ideia de Ana Júlia se refletiu no livro. Os textos possuem uma linguagem simples, mas bastante informativa, e a diagramação e apresentação das imagens foram pensadas para transmitir os conteúdos de forma didática.

Sobre a escolha de pesquisar o patrimônio, Graziele comenta que essa área da arquitetura sempre foi seu interesse, desde a graduação. “Minha dissertação de Mestrado abordou a evolução do câmpus da Universidade Mackenzie, em São Paulo”, relata a professora. Em relação a Sorocaba especificamente, a aproximação ocorreu a partir de 2016, quando a ela assumiu os componentes Arquitetura Brasileira e Técnicas Retrospectivas, na Uniso.

Processo de produção
A professora Graziele conta que o processo de levantamento de dados e produção do livro foi longo, pois a cada semestre as diferentes turmas de alunos produziam levantamentos e novas edificações eram acrescentadas ao cadastro. “O maior desafio foi o acesso à documentação dos imóveis, e, muitas vezes, acesso aos locais para registro fotográfico e levantamento do material”, pondera.
Ainda falando sobre o processo de produção, a professora explica que, inicialmente, as edificações foram organizadas por data de construção, usos e tipologia arquitetônica. Posteriormente, foi revisado o conteúdo em cada uma dessas categorias, e os alunos organizaram as informações das fichas cadastrais originais. A prioridade na seleção foi dada para os imóveis que possuíam maior facilidade de acesso e mapeamento na cidade de Sorocaba.

“Com certeza, foi um desafio”, comenta Ana Julia sobre o processo de produção. A pesquisa faz parte de um trabalho do curso de Arquitetura e Urbanismo, juntamente com o Sociê Lab (Laboratório de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo), e é bastante densa pela quantidade de informações e a longevidade das obras. A aluna explica ainda que todo o trabalho foi facilitado pelas fichas desenvolvidas em vários semestres por outros alunos, nos componentes Arquitetura Brasileira e Técnicas Retrospectivas, e também organizadas por estudantes que participam do Sociê Lab. O material de cadastro continha dados históricos e técnicos que permitiram a criação do material final.
Sobre o fluxo do processo de produção, Ana Júlia explica que primeiro foram levantados os dados que o curso possuía em seus arquivos (como data de construção, grau de tombamento etc.) e a partir disso foi definido um recorte de 30 obras para o desenvolvimento do material. “Depois, levantamos os desenhos técnicos dos projetos que tínhamos acesso, textos sobre a história e importância de cada obra e também os desenhos artísticos, para depois começar o processo de diagramação e criação de mapas, para melhor visualização”, detalha a aluna.
O universo da pesquisa também tem seus desafios. Ana Júlia conta que a metade da pesquisa foi o momento de maior preocupação, sendo o tempo um fator crucial. “ Eram muitos imóveis, havia muito material a ser finalizado ainda, sem contar as novas tarefas que viriam com o novo semestre. A ajuda do Sociê nessa etapa foi imprescindível, não teríamos conseguido registrar tantas obras sem esse apoio”, frisa Ana Júlia. Mas, apesar das dificuldades, ela exalta que o processo foi muito satisfatório.
Acesso ao livro
Quanto à importância de um livro que detalha quais patrimônios e monumentos históricos a cidade possui, Graziele aponta que ele é o instrumento de preservação, reconhecimento e valorização do patrimônio local, e que as edificações que o compõem são bens materiais que contribuíram para a formação da cidade. Assim como descrito pela escritora Joyce Berth, ao afirmar que “tudo o que existe na cidade, em cada canto e esquina, nos diz muito sobre a sociedade que ali vive”, Graziele comenta que imóveis históricos estão relacionados com a identidade local e representam uma importante fonte de pesquisa. “Entendo que se trata de uma iniciativa voltada à educação patrimonial e deve ser disponibilizada ao público por ser uma das estratégias para a formação de uma sociedade capaz de lidar com a compreensão da sua história”, reforça Graziele.

E como ter acesso ao livro? De acordo com a professora, por enquanto existe a possibilidade de publicação online. “A ideia é dar sequência à pesquisa para montagem de um segundo volume contendo novas edificações já identificadas como potenciais patrimônio de Sorocaba e Região”, detalha.
Sobre o segundo volume da obra, Ana Júlia se entusiasma: “há muito material a ser registrado, tanto referente a novas construções quanto a atividades que promovam a interação do leitor. Gostaria de participar da produção, acredito que esta foi uma experiência muito diferente e que me deu base para outros projetos e estudos. Um segundo volume seria muito bem-vindo”.

Ana Júlia também reforça a importância do acesso à educação patrimonial. “Particularmente, como não sou de Sorocaba, hoje consigo me guiar pela cidade reconhecendo as construções, isso exemplifica o papel dessas obras”.. Ainda segundo a aluna, essas edificações estão no imaginário dos habitantes e das pessoas de fora, tornando acidade única em meio a tantas construções genéricas. “Valorizar a história é ter referência para criar projetos singulares, que adequem aos novos usos que a atualidade pede”, conclui Ana Júlia.
Texto: Rafael Filho